A impactante, mas inconstante 'Dias Perfeitos'
Qualquer pessoa que conhece o mínimo sobre a obra de Raphael Montes sabe como seus livros abraçam o gore, trazendo bastante violência e podendo até causar angústia no leitor. Uma dessas obras é Dias Perfeitos, que ganhou uma adaptação seriada para a Globoplay, lançada no último mês. A versão audiovisual da obra foi comandada por Claudia Jouvin e Joana Jabace.
Na história Téo se encanta por Clarice após conhecê-la por acaso e, diante das negativas da jovem, decide sequestrá-la acreditando que, com o tempo, ela irá correspondê-lo. Ele a leva para uma viagem horripilante pelas belas paisagens do Rio de Janeiro. A série nos apresenta o universo e os personagens como um drama familiar e jovem adulto, mas vai escalonando para um thriller agonizante. Aqui já deixo claro que como não consumi a obra original, seguirei minha análise apenas pelo que vi na série, sem comparações com o livro.
A série faz a escolha de trabalhar a partir de pontos de vista. Por vezes vemos os acontecimentos através das sensações de Téo, o agressor que pensa estar fazendo algo bom, e por vezes a narrativa nos guia através do olhar de Clarice, a vítima. Essa dupla visão funcionou bem… enquanto os dois estavam dentro do universo geral da série.
A partir do momento em que Téo e Clarice se distanciam do restante do núcleo a noção do ponto de vista se perde um pouco, já que ao mesmo tempo em que parece que estamos vendo a narrativa a partir da perspectiva de um dos dois, a série também nos leva para uma ‘terceira via’, na qual nenhum dos dois estão presentes. Se isso acontecesse em um momento entre os dois pontos de vista até traria um certo sentido, porém a montagem intercala seja o Téo ou seja a Clarice com a investigação da polícia ou algum outro arco paralelo em que não se fazem presentes.
Outro incomodo que a série me trouxe é algo que acontece comumente em produções que tentam trazer um personagem manipulador: tornar ele extremamente inteligente através do emburrecimento do outro. O Téo realmente tem um quê de psicopatia, moldando a sua personalidade quando lhe convêm, mas as vezes também os outros personagens facilitam demais a sua vida, como a própria mãe da Clarice, que inicia como uma mãe negligente, mas passa a ser apenas uma mulher extremamente manipulável, o que é pouco coerente para uma prestigiada advogada criminalista.
Outro ponto incoerente é a polícia. Ao mesmo tempo em que aparecem policiais tão incompetentes ao ponto de acreditarem na desculpa de Téo após presenciarem uma Clarice fraca e excessivamente machucada, um delegado está extremamente engajado no caso a ponto de ir fazer uma visita para interrogar uma possível testemunha durante a ceia de natal. Essas incongruências acontecem ao decorrer dos oito episódios, a série tenciona a suspensão de descrença do espectador, o que poderia ser positivo se fosse proposital, mas apenas pareceu artimanhas para conseguirem amarrar um roteiro que estava solto.
Comecei o texto destacando os pontos ruins, mas se o roteiro apresentou pontos fracos, o auge da série são as atuações. Contando com nomes já rodados como coadjuvantes, como Débora Bloch, Lee Taylor e Fabíula Nascimento, a série estabelece uma base consistente de personagens bem construídos, mas é admirável o que a dupla protagonista faz.
De início parece que a Clarice de Julia Dalavia vai ser mais uma daquelas protagonistas jovens, ricas e chatas que o espectador não consegue torcer para que tenha sucesso. Porém a sua crescente e sua transformação ao longo da série mostram toda a potência da atriz, no mesmo nível que sentimos antipatia por suas birras no primeiro episódio, sofremos com as suas dores e a cada mutilação que sofre de Téo ao longo do cárcere. Não apenas pelo nível de violência apresentado, mas principalmente pela alma que Julia trouxe para a personagem.
Ao seu lado temos o Téo de Jaffar Bambirra. Nos tempos áureos das novelas, com certeza Jaffar não poderia andar na rua que seria alvo de ofensas pelas coisas que seu personagem fez, o ator entra de cabeça na complexidade do ‘vilão’ e interpreta suas facetas de forma primorosa. Se por um lado sentimos a dor da Clarice, do outro sentimos o ódio e desprezo por Téo, a todo momento esperamos pela sua derrocada, mas também sentimos medo em cada olhar maligno que ele lança pela câmera. Não querendo entrar em clichês da internet, mas se os dois atores fossem estrangeiros, a internet estaria em êxtase pelo que eles fizeram em Dias Perfeitos.
Quem também faz uma ótimo trabalho é Juliana Gerais como Laura, mas apesar do seu caminho ser bem consistente, no final o roteiro simplesmente joga a personagem em um estereótipo da negra mística, que consegue resolver os problemas da sua amiga protagonista com plantas e “magia” (que no caso não chega a ser magia obviamente, mas também não transparece verossimilhança com a realidade para o espectador).
Dias Perfeitos é um thriller que coloca em cheque os limites da maldade e do sofrimento humano. A trama não leva apenas os personagens, mas também os espectadores ao extremo. Obviamente a série é pesada, traz ao nível máximo a violência contra a mulher, pode trazer muitos gatilhos em espectadores sensíveis, e principalmente para mulheres que passaram por situações de violência, e vejo bons acertos da série para trazer essa adaptação.
Primeiramente é a total psicopatia do Téo, em tempos em que personagens controversos e vilanescos estão fazendo sucesso com o público, era perigoso trazer traços no personagem em que pudesse gerar simpatia da audiência, então ele acredita estar fazendo o bem, mas em nenhum momento isso fica dúbio para quem assiste. E também as violências mais gráficas ficarem implícitas, ainda vemos muito acontecer, mas também diversas coisas ficam entendíveis que aconteceram sem precisar apelar para o sadismo na tela.
No fim das contas, acho Dias Perfeitos uma boa série. Consegue trazer a essência de Raphael Montes, mas amenizando as coisas que precisam para que seja aceita pelo grande público. O final causou uma polêmica entre os leitores por ter sido bastante alterado, e confesso que gosto do resultado da conclusão da obra, enfatizo aqui que gosto do resultado, porém o caminho nos minutos finais que a série levou para chegar lá ficou algo corrido e forçado se comparado com o restante da obra.




